domingo, 22 de julho de 2018

PERDAS E GANHO



Para ganhar aquilo que vale a pena ter, pode ser necessário perder tudo mais.
Bernadette Devlin

Terminado o tratamento quimioterápico, começamos os preparativos para a cirurgia.

Os exames indicavam que a terapia neoadjuvante havia alcançado seu objetivo: diminuir os nódulos para uma margem maior de sucesso com a mastectomia.

Durante os dias que antecederam a retirada de minha mama esquerda, ao sair do banho, parava na frente do espelho e me despedia daquela imagem, sem conseguir visualizar, mentalmente, como seria a que a substituiria... dias de tristeza, insegurança e medo.

O "Dia D" chegou e fui para a internação acompanhada por amigas e familiares.

Dispensei o "sossega leão" para descer para a sala de cirurgia. Antes do procedimento, aguardei, algum tempo, numa sala de recuperação, com vidros do chão ao teto, que me permitiam ver o dia lá fora. Era um dia cinza, frio, feio, mas rezava por vê-lo novamente.

Enfim, chegou o momento... não havia como fugir daquela perda, restava-me a fé!

O anestesista pegou uma veia em minha mão direita e disse: vai doer. Perguntei: você vai me apagar logo? E apaguei.

Quando abri meus olhos novamente, estava na mesma sala de recuperação e minha cabeça estava voltada para os vidros, que me mostravam uma tarde de sol linda, típica da primavera! Chorei, em agradecimento!

Naquele dia, fiz uma troca: perdi "um pedaço de mim" para ganhar a possibilidade de continuar vivendo.




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domingo, 15 de julho de 2018

Fases

Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece.
Frida Kahlo

Terminadas as 4 aplicações de quimioterapia vermelha (uma a cada 3 semanas), vieram as 12 aplicações da quimioterapia branca (uma por semana).

Apesar da fama "das vermelhas", confesso que senti mais os efeitos colaterais "das brancas", pois a medicação (EMEND), paga pelo convênio, para evitar os enjoos e vômitos, não é custeada nesta fase, que julgam ter maus-estares mais leves...

Estas podiam causar fortes reações alérgicas, as quais, graças a Deus, não sofri, mas, dentre outras, as neuropatias me pegaram em cheio: descolamento e dor nas unhas, dedos e pés amortecidos; e muitas ondas de calor.

Num domingo, passeando com minhas "fiéis escudeiras", Fernanda e Valéria, saí de um nível da calçada e fui para o outro sem perceber... só não caí porque o desnível não era grande, mas percebi que estava perdendo a sensibilidade das solas dos pés.

Preocupadas comigo, por saberem de minhas andanças solitárias diárias, convenceram-me a comprar uma bengala. Assim entrou a "Olívia" em meus dias.

Graças a ela, pude constatar o quanto as pessoas são solidárias com o próximo, frente às suas deficiências, ao contrário do que muitos creem!

 Olívia foi minha companheira por 3 meses!





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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Compaixão

O sábio procura a ausência da dor e não o prazer.
Aristóteles

Não sabendo que dores esperar, optei por sofrê-las sozinha, tentando poupar aqueles que cuidariam de mim, e ainda bem que assumi esta postura de ser forte e não transparente, porque senti, na pele, que a dor é de quem sente, literalmente.

Logo depois da segunda aplicação da quimioterapia, vermelha, surgiram feridas no meu períneo. Eram dias quentes, cheios de calores também provocados pelas mudanças hormonais. Não consigo descrever em palavras educadas ou linguagem científica, o "desconforto" que sentia.

No auge do desespero, o oncologista só sabia me orientar a procurar um ginecologista, que só tinha horário para longos dias de espera... Tentei medicação para candidíase, sem resultado. Experimentei remédios para herpes e nada. 

Sentia que ía chateando as pessoas que me cercavam, com minhas lamúrias. A cama passou a ser forrada com toalhas, trocadas duas vezes ao dia, para amparar o "suor" da região, que nem roupa íntima aguentava.

Numa madrugada, agoniada, por coceiras, pontadas, ardores, não sei se em prece ou dialogando com meu raciocínio, tentando entender de onde surgiram aquelas feridas, tive um lampejo: segundo o médico, a quimioterapia é um veneno e para tirá-lo do meu organismo era necessário beber muita água... esta água com parte do remédio saía pela urina, então o contato desta toxicidade com minha pele, por horas, poderia estar provocando as erupções... Passei a tomar banhos de assento, a cada vez que usava o banheiro. Bingo! As feridas começaram a sumir e os incômodos também!

Não sou gênio e nem estudei biomédicas. Este raciocínio tão simplório, nunca passou pelas preocupações dos profissionais que cuidam de nós, pacientes de quimioterapia? 

Sei que o tratamento contra o câncer vem passando por um processo de humanização, mas arrisco dizer que falta muita humanidade naqueles que não sentem a dor de quem sente!



https://www.google.com.br/search?rlz=1C1GCEA_pt-BRBR758BR758&biw=1366&bih=662&tbm=isch&sa=1&ei=b--CWrCMN4SrwASh6aKYDQ&q=compaix%C3%A3o&oq=compaix%C3%A3o&gs_l=psy-ab.3..0l10.3527.19177.0.20528.23.13.0.1.1.0.239.1543.1j8j2.12.0....0...1c.1.64.psy-ab..12.9.1232.0..0i10k1.165.RmDhhevbt5I#imgrc=1EOZT7e8LaXWFM:

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Caindo das nuvens



O progresso técnico deixará apenas um problema: a fragilidade da natureza humana.
Karl  Kraus


Em praticamente todas as sessões de quimioterapia, minha mãe, também, esteve comigo e voltava, em média, para sua residência (fora da capital) após 3 dias.

As primeiras 4 sessões (vermelhas), tinham um intervalo de 3 semanas, entre uma e outra, para que o organismo conseguisse se recuperar do "ataque" que sofria.

Desta forma, passei muitos dias sozinha, por preferir ficar em minha casa, sendo monitorada, pela família, a distância.

Passados alguns dias da primeira aplicação, tive problemas com meu sistema imunológico e a temida febre, neste contexto, veio, mas veio "leve".

Liguei para minha irmã, que prontamente veio me "socorrer", pois a orientação médica era: "37,8° C? Corra para o Pronto Socorro e me ligue do caminho" - palavras do oncologista.

Chegando ao Pronto Socorro, do hospital no qual faço meu tratamento, fui prontamente atendida e como a febre não estava alta, a médica (recém-formada) explicou que faríamos um hemograma completo e, dependendo dos resultados, pediria outros exames depois.

Com os resultados em mãos, a médica tentava falar, por telefone, com meu oncologista, mas como já era madrugada, ele não atendia suas ligações.

Entre uma chamada e outra, ouvia a médica dizer que se não conseguisse o contato, me mandaria de volta para casa com uma receita de antibióticos, pois, em sua opinião, "meu risco era baixo".

Após ouvir isto umas três vezes, perguntei o que ela queria dizer com "risco baixo", ao que respondeu como se fosse óbvio:
- Risco de óbito...

Desde o recebimento do diagnóstico de câncer de mama, recebi tanto apoio das pessoas que me cercam, com palavras positivas, de fé e de ânimo, que chegava a esquecer a gravidade do que tinha.

Resumindo o que senti, naquele momento: aquela resposta da médica e sua expressão corporal, me trouxeram para a Terra, novamente, em questão de segundo.

Olhei para minha irmã pedindo socorro, já com as lágrimas molhando meu rosto, enquanto sentia a fragilidade da vida.

Quantas vezes tive febre ao longo dos meus 50 anos... mas nunca tinha estado tão vulnerável, ao ponto de sentir-me no limiar dos "mundos"...




https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&biw=1366&bih=662&tbm=isch&sa=1&ei=F-ZxWrD9DsexwAToyKG4Cw&q=entre+o+c%C3%A9u+e+a+terra&oq=entre+o+c%C3%A9u+&gs_l=psy-ab.1.1.0l5j0i24k1l5.68374.74167.0.77016.23.15.0.2.2.0.172.1538.0j12.13.0....0...1c.1.64.psy-ab..9.12.1330.0..0i67k1.187.6T2d0R2Bvyw#imgrc=pY07i5a3mWmQ2M:




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O que esperar?


Tenho um pouco de medo: medo, ainda, de me entregar, pois o próximo instante é desconhecido.
Clarice Lispector


Meu único conhecimento sobre as reações da quimioterapia era hollywoodiano.

Após a primeira consulta com o oncologista, recebi três folhas com orientações sobre as possíveis reações do tratamento - porque cada organismo reage de um jeito.

Segundo o médico, era de vital importância que me preparasse bem, psicologicamente, pois a primeira aplicação, poderia programar meu cérebro para o sofrimento.

Ele contou que alguns pacientes quando chegavam, no hospital, para fazerem as aplicações, antes mesmo de entrarem no elevador, já começavam a vomitar.

Para me tranquilizar neste sentido, meu oncologista informou que meu convênio havia aprovado uma medicação - EMEND - que me ajudaria bastante em relação às náuseas e vômitos e que além deste, ainda deveria ter mais três outros, em casa, para ajudar, nos outros dias. O EMEND seria disponibilizado meia hora antes do início das aplicações e voltaria para casa com dois comprimidos para os dois dias seguintes.

Como teria que fazer 16 aplicações de quimioterapia, o médico solicitou ao convênio a colocação de um catéter em meu peito, para passar a medicação com mais segurança e menos sofrimento. Mas como a liberação do convênio demorou um pouco (burocracia), as duas primeiras aplicações foram administradas nas veias de meu braço esquerdo.

A dor e a queimação, nas veias, que sentia durante a passagem das medicações, indicavam que aquelas não seriam mais usadas depois disto...

Lembro que chorava, quando o líquido vermelho era administrado, e das mãos da minha irmã 
segurando as minhas.









https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&biw=1366&bih=662&tbm=isch&sa=1&ei=d8tpWs-7IomEwgSJg6HIDA&q=segurando+as+m%C3%A3os&oq=segurando+as+m%C3%A3os&gs_l=psy-ab.3..0j0i5i30k1.30707.31285.0.34776.2.2.0.0.0.0.133.234.0j2.2.0....0...1c.1.64.psy-ab..0.2.231...0i13k1j0i13i5i30k1.0.AMyxglSBMro#imgrc=PvWXNKCaEUAZGM:

sábado, 20 de janeiro de 2018

Descobrindo "fontes de ânimo"

A amizade desenvolve felicidade e reduz o sofrimento, duplicando a nossa alegria e dividindo a nossa dor.
Joseph Addison


Quando o Mastologista me deu o diagnóstico positivo para câncer de mama, como os leitores puderam acompanhar nos "posts" anteriores, eu já sabia do meu "papel", como naquela história de "o gato subiu no telhado". 

Por isto, meu choro, junto à minha irmã, que se trancou comigo no banheiro do consultório, prometendo que não me deixaria sozinha, não foi de desespero e durou pouco.

Já havia decidido que meu testemunho de fé e coragem conduziriam meus passos dali em diante.

Lembro que quando peguei o resultado da segunda biópsia, confirmando o que o Mastologista já havia vaticinado, minha mãe, que, acho, ainda nutria alguma esperança, começou a chorar e eu pedi a ela que me ajudasse a ser forte, que era assim que queria enfrentar o que estivesse por vir.

Por 10 anos, ouvi de um "familiar" que eu não tinha amigos, que as pessoas próximas só estavam comigo porque tinham algum interesse, que eu era "usada" por meus colegas de trabalho porque tinha coragem de dizer o que eles pensavam (bucha de canhão), que eu não tinha noção de mim mesma, por isto não enxergava o quanto era difícil alguém gostar de mim.

Mas qual não foi minha felicidade ao constatar que este "familiar" estava errado? 

Descobri amigos que tinha e não sabia.

O apoio chegou de todas as formas: primos se aproximaram; vizinhos ajudaram nos afazeres domésticos, nas refeições, nas aplicações de injeções e vigília; por telefone, redes sociais, e-mails, chegavam palavras de ânimo (diariamente) e minha casa, que antes era tão vazia, se encheu de solidariedade, amizade e amor.

A todos estes AMIGOS, interessados, sim, na minha cura e em dividir o fardo comigo, minha gratidão eterna!





https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbm=isch&source=hp&biw=1366&bih=662&ei=sTpjWrAzxZfABPHOo-AJ&q=amizade&oq=amizade&gs_l=img.3..0l10.3619.5332.0.6284.9.6.0.3.3.0.220.553.0j3j1.4.0....0...1ac.1.64.img..2.7.597.0...0.RjrvJtVdHCo#imgrc=jFDXQDxxi6_tzM:

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Interesses Capitalistas


A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas.
Eduardo Galeano


Diagnóstico fechado, embora aguardando a segunda biópsia para confirmar.

Com o resultado positivo do anátomo patológico, Dr. Ricardo decidiu pela linha de tratamento: quimioterapia, cirurgia (mastectomia total e esvaziamento parcial da mama), radioterapia, fisioterapia, quimioterapia oral por 5 anos e reconstrução da mama.

O médico indicou os hospitais com os quais preferia trabalhar e tinha certeza que, ao menos, um deles era atendido, com certeza, pelo meu convênio médico.

Em contato por telefone e pessoalmente, o convênio (de classe média alta), negava o atendimento nos hospitais indicados, sugerindo outros, mais "populares".

Foi graças a um novo profissional da área da Saúde, que faz a intermediação entre os médicos e os hospitais, que descobri que realmente tinha direito a  uma das instituições indicadas pelo Dr. Ricardo: o Hospital Santa Paula, afiliado ao Hospital Sírio Libanês.

Fui encaminhada ao Dr. Tiago, o oncologista que cuidaria do câncer em meu corpo, que concordando com a linha de tratamento do Dr. Ricardo, indicou 04 aplicações da quimioterapia "vermelha" e 12 aplicações da quimioterapia "branca" - elas recebem este nome em função da cor de seus líquidos.

Fui avisada que perderia meu cabelo na segunda aplicação, mas ele começou a cair na primeira.

Não havia o que fazer... raspei a cabeça e quando cheguei em casa, minha faxineira chorou comigo.




https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&tbm=isch&source=hp&biw=1366&bih=662&ei=tStfWqOqDcqcwATqjoeQBw&q=maldade+do+capitalismo&oq=maldade+do+capitalismo&gs_l=img.3...2220.9607.0.11098.24.16.0.8.1.0.447.1526.0j7j1j0j1.9.0....0...1ac.1.64.img..7.9.1343.0..0j35i39k1j0i10k1j0i24k1j0i5i30k1.0.3GO1C79LAwE#imgrc=8LaxOQWRZmIjfM: